Esvaziamento, pobreza e minoridade

Mensagem Litúrgica do primeiro dia da Novena do Nosso Seráfico pai, São Francisco, em 2020. Primeira Leitura (Ec 3, 1-11), Salmo Responsorial 143 (144), Evangelho (Lc 9, 18-22).

No dia em que se iniciaram os festejos do Nosso Seráfico pai, São Francisco, o Santuário São Francisco de Assis recebeu o pároco da Igreja São Marcos e São Lucas, na Ceilândia, Frei Roberto Cândido OFMConv., que também já foi pároco do Santuário (2012-2016), para falar de São Francisco, modelo para o homem e intercessor.

Frei Roberto iniciou comentando o quanto o tema do primeiro dia da novena se conecta com o Evangelho do dia: “Mas Jesus perguntou: ‘E vós, quem dizeis que eu sou?’ Pedro respondeu: ‘O Cristo de Deus’” (Lc 9, 20). Nesse discurso cristológico de Jesus Cristo revela-se a resposta de Pedro inspirada pelo Espírito Santo, que fez de Pedro um sinaleiro.

Assim como Francisco, que é modelo e intercessor na medida em que tinha uma espiritualidade baseada na oração. O modo de condução de vida de São Francisco de Assis foi a oração, e cabe ao homem a compreensão sobre o fato de que, para fazer qualquer coisa, a oração se faz necessária, ainda mais nesse mundo hodierno.

Nesse mundo hodierno, sobremaneira, três coisas se fazem imprescindíveis. A primeira delas, o clamor pela oração, e para que cada homem seja sinaleiro de Jesus, como Pedro o foi. O que sabidamente reflete o espírito de Francisco e é uma dificuldade para o homem. Para alcançar o coração de Francisco e toda a sua espiritualidade, é necessário inspirar-se na semelhança vital da fé que conduzia o Seráfico pai, e que fez dele modelo. Esse alcance reflete, ainda, a segunda coisa imprescindível, como muito bem explica o grande pensador franciscano Élois Leclerc, e revela o segredo da sabedoria.

A sabedoria, terceira coisa imprescindível, revela a ótica cristológica do próprio Deus, de um Jesus pobre e humilde. É difícil compreender a humildade de Francisco, que até mesmo “engolia” o que não gostava para vencer a si mesmo. O que fazia dele, em plena Idade Média, era tão desigual, um sinal positivo da visão de Deus e do homem. E é isso que Francisco oferta num mundo que sempre teve dificuldade em rezar, em se concentrar, em se desligar do mundo.

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Observar essas características de Francisco nos evangelhos sinóticos (São Marcos, São Mateus e São Lucas) recorda um Jesus Cristo que sempre se retirava para rezar, a sós! Para o encontro do homem com o selvagem. Sim, o selvagem de cada homem que faz com ele nem se suporte em alguns momentos. Francisco passou por isso, por momentos de angústia com sua própria fraternidade. Não se “chega lá” lutando, mas sim, orando. Lutar com o outro não significa sabedoria. Lutar com o outro não faz o homem chegar ao encontro do próximo, do irmão. O que proporciona isso é a adoração.

Ao homem que sabe verdadeiramente adorar, nada poderia perturbá-lo. Como a grande calma dos rios que correm em oração e adoração. Francisco foi sinaleiro, santo em vida, contudo, essa conversão não retira dele a humanidade, pela qual ele lutou, incessantemente, uma vez que ele se reconhecia um pobre pecador. Enquanto homem, Francisco sabia que a sua humanidade era tão forte que ele, por vezes, não a conseguiu controlar.

Francisco dizia que essa busca por esse controle não era feita com o outro, mas sim a partir de si mesmo. Isso só é possível a partir do momento em que se permite a condução do Espírito Santo de Deus, do desapego, do livramento da dificuldade de falar com Deus. Francisco é modelo e intercessor porque experimentou em Jesus Cristo, pobre e humilde, a revelação de Deus em sua vida, o caminho que Deus oferta ao homem, cujas expressões mais adequadas são o esvaziamento, a pobreza e a minoridade.

Texto por: Letícia Oliveira

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