Não mais contemplar, mas viver o Senhor

Mensagem Litúrgica do sétimo dia da Novena do Nosso Seráfico pai, São Francisco, em 2020, memória de Santa Terezinha do Menino Jesus. Primeira Leitura (Jó 9, 21-27), Salmo Responsorial (26) e Evangelho (Lc 10, 1-12).

Na sétima noite da novena de São Francisco, celebrada na última quinta-feira (02), Frei Almir Rodrigues OFMConv., pároco na Paróquia São Francisco de Assis, Valparaíso-GO, relembrou que São Francisco de Assis viveu intensamente uma experiência com Deus na oração e exortou aos fiéis a aprender com ele e transmitir esse ensinamento a todos aqueles com quem convivem.

O celebrante afirmou que a reflexão de Francisco, na experiência do Cristo ressuscitado, comunica um santo que se mostra homem em oração, feito oração, combustível na vida espiritual dos homens de fé. Importante na caminhada de fé do cristão. Sem oração, nenhum cristão vai muito longe em sua vida. Faz-se necessária a súplica, a petição, o agradecimento e a oração, a contemplação, bem como o questionamento, qual será o tempo de oração que tem sido feito na intenção de entrada na intimidade com Deus.

Frei Almir observou que nesse tempo de pandemia alguns fiéis se encontram acomodados ou entregando-se a uma desesperança espiritual. E o que Francisco tem a dizer a respeito disso? Para ele, o santo aponta para a oração. São Francisco fez de sua vida uma oração em comunhão ao divino, numa entrega profunda a Jesus, que fez o santo ser considerado o maior imitador de Cristo.

Francisco feito oração, uma oração simples, direta e espontânea, reveladora de uma intimidade com o Senhor. Intimidade que não se explica, mas Francisco sentia Deus e permitia que Ele orientasse a vida e conduzisse seus passos. Francisco, feito oração, se entrega todo, inteiro, e incita o seu irmão, seus filhos espirituais, para que amem, honrem, adorem, sirvam ao Senhor Deus de coração limpo e mente pura, orando sempre, sem esmorecer, sendo os adoradores que o Pai procura, assim com Jesus foi o verdadeiro adorador: Fazendo da oração o próprio agir.

A oração de Francisco, Cântico das Criaturas, “[…] Louvados sejas, ó meu Senhor, com todas as tuas criaturas, especialmente o meu senhor irmão Sol, o qual faz o dia e por ele nos alumias. E ele é belo e radiante, com grande esplendor: de Ti, Altíssimo, nos dá ele a imagem. Louvados sejas, ó meu Senhor pela irmã Lua e as Estrelas: no céu as acendestes, claras e preciosas e belas…”, mostra o quanto o santo alcançou a intimidade que atingiu o ponto alto de perceber Deus na criação.

Oração tem muito a ver com amizade, com o amor, lembrando a memória de Santa Terezinha hoje vivida, dia 1o de outubro, “para mim a oração é um impulso do coração, um simples olhar para o céu, um grito de gratidão e amor no meio da provação como no meio da alegria”, e que a permitiu viver o amor. Relacionar-se com Deus na amizade e no amor mostra um relacionamento entre a fraqueza e a plenitude, entre o amante e o amado, entre o esposo e a esposa, relacionamento que aproxima as partes do Criador. É um fogo, é fonte de vida, misericórdia e paz. Refletindo sobre tudo isso, Frei Almir afirmou que São Francisco viveu esse relacionamento de forma inebriante.

Refletindo sobre esse amor que Francisco sentia por Deus, Frei Almir convidou os fiéis a refletirem se atualmente estamos apaixonados ou deixando o Senhor para “segundo plano”. O celebrante afirmou que São Francisco tinha uma fé atuante. Que em seu itinerário, procurou fazer da sua vida espaço para o outro e depois de sua conversão começou a trabalhar seu espírito para cuidar do outro, para romper com suas próprias ambições e projetos pessoais e mundanos, fazendo assim um novo percurso em sua caminhada.

O vazio experimentado por Francisco, segundo Frei Almir, não foi no sentido da espera de alguma realização, de alguma promessa, mas no sentido da dinâmica do amor, em que se beija e é beijado, em que se ama é amado, em que se abraça é abraçado, sem exigências, entrega gratuita. Como uma mãe que acorda pela madrugada para amamentar o bebezinho e compreende a realidade que a vida então a exige, e pura e inteiramente, livremente, entrega-se em doação para o filho. Francisco teve essa experiência com o Senhor em seus longos dias, experiência que o levou do ilusório para a eternidade a partir de questionamentos e inquietações: “Senhor, o que queres que eu faça, o que queres de mim?”.

Cabe ao homem querer ser instrumento das mãos do Senhor, sinal da bondade, acolhida, amor e imensidão. Tudo isto Francisco viveu. Diversos temas como a misericórdia, amor, ternura, tudo isso o homem pode encontrar quando se questiona o que o Senhor quer de cada um. Mesmo que fique confuso, como Maria Santíssima ficou com o anúncio do Anjo, como São José ficou com seu sonho, como Francisco ficou ao receber a mensagem do Senhor para que ele restaurasse a Igreja. Foi com o espírito orante, todo mergulhado em Deus que ele conseguiu. O homem dotado de sentimento interior, fundamentado na Bíblia Sagrada, alcança um coração que se relaciona com o Deus e não perde o seu caminho.

Rezar é descansar na presença do Senhor, é mergulhar na intimidade profunda do Senhor, abrir o coração a Ele. Francisco soube bem fazer isso em sua vida, visitando o seu interior e encontrando em Deus, Aquele capaz de preencher o seu coração. Despojou-se de tudo e tomou consciência daquilo que o afastava de Deus, e se abriu ao vazio que permitiu ao outro chegar. Buscou o profundo silêncio, afastou-se das agitações mundanas, do mundo dos negócios e esforçou-se para reter Cristo em seu interior, conforme registrado por São Tomás Celano.

Por fim, finalizando a reflexão Frei Almir, e recordando D. Pedro Casaldáliga, Bispo Emérito de São Félix do Araguaia (MT), falecido no último dia 8 de agosto aos 92 anos, deixou a mensagem de que a oração é esvaziar-se cada vez mais para ser preenchido do amor, da ternura e da bondade de Deus, para assim recordar o texto bíblico: “Eu te conhecia só de ouvir falar, mas agora os meus olhos te veem (Jó 25, 5).

 

Texto por: Letícia Oliveira – Edição: Kelsiane Nunes | Fotos: Aureni Brito

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